[4] Omnes species justitiae quas habent servi dei in veritate possunt habere [5] servi diaboli in simulatione. Solam autem charitatem spiritus sancti non [6] potest immundus spiritus imitari. I(Todos os tipos de justiça as quais têm os servos de Deus em verdade podem ter [também] os servos do diabo dissimuladamente. Somente o amor [como dom] do Espírito Santo, o espírito imundo não pode imitar.) - Lutero, notas marginais aos escritos de Anselmo, sem data.
Os editores da Weimarer Ausgabe, no prefácio, sugerem que Lutero teria lido Anselmo em conexão com a preparação para suas preleções sobre Juízes (1511-1512, somente para os colegas de mosteiro em Wittenberg, pois Lutero ainda não havia obtido o doutorado que o habilitava à cátedra de lector biblicus na Universidade, e sobre os Salmos (estas, de 1513 a 1515), tomando por base as alusões e referências de Lutero nas notas preparatórias para essas mesmas preleções.
A questão é que Lutero, somente em 1518, teria falado em "tipos de justiça", em dois sermões, "Dos dois tipos de justiça" e "Dos três tipos de justiça". Na anotação acima, Lutero fala em "todos os tipos de justiça", no sentido claro de "obras exteriores". Ímpios e hipócritas podem imitar todas as obras cristãs, exceto o amor que é dom do Espírito Santo. Para essa obra, é preciso a fé verdadeira em Cristo, que ímpios e hipócritas, por definição, não têm, e que é "justiça interior" que só o Espírito Santo cria no coração.
Lutero sempre manteve essa compreensão de que a "justiça interior" é a fé, mesmo quando ainda não distinguia muito bem a fé como confiança (fiducia) da contrição (contritio) ou da humildade (humilitas). À "justiça interior", que é a fé em Cristo, Lutero opunha a "justiça exterior", que, em 1518 distingue em dois subtipos: a justiça civil (obediência exterior por causa de recompensas e castigos exteriores) e a justiça cristã (a obediência exterior, que é fruto do Espírito, o amor ao próximo que segue à fé em Cristo). Mas essa distinção tem em vista mais a motivação das obras do que as obras propriamente ditas, e é disso que Lutero fala, também, na nota marginal ao texto de Anselmo: as obras exteriores todas podem ser imitadas, mas o amor que é dom ou fruto do Espírito Santo não pode ser imitado.
Em 1531, nas Preleções sobre a Carta as Gálatas, Lutero distingue entre a "fé abstrata" e a "fé concreta". A fé abstrata não tem conteúdo de si mesma, nela não há espaço para nenhuma obra, mas esta fé não é um vácuo espiritual, como imaginavam os escolásticos com sua definição da fé informe (fides informis). Nas notas marginais aos Sermões de Tauler (1516), Lutero já havia afirmado que não existe "vácuo espiritual" (vacuum spirituale). Em 1520, Lutero afirma que o "coração" não é um vácuo (nisi cor vacuum sit). Nas preleções de 1531, Lutero afirma que não há "meio termo espiritual", ou uma pessoa está sob a graça ou sob a ira de Deus. A "fé abstrata" não é fé "vazia", mas fé que não se firma em nada na própria pessoa, em nenhum mérito, justiça, piedade ou obra própria, mas somente no que está fora da pessoa e fora da própria fé, a "fé abstrata" (fides abstracta) é fé que não tem como objeto a iustitia propria mas, somente, a iustitia aliena, a justiça de Cristo, a justiça extra nos que é a graça de Deus prometida no evangelho e na palavra dos sacramentos. Esta fé Lutero chama de fides apprehensiva Christi (= fides Christi no Comentário de Gálatas de 1519).
Quando a fé, de si mesma um quase vácuo é preenchida por Cristo (iustitia aliena) e pela graça de Deus (extra nos), então essa mesma fé, na linguagem de Lutero, enche os céus e a terra, porque nada pode ser maior do que esta pequenina fé que apreende a Cristo, a graça de Deus, a vida eterna e todos os bens eternos que são a herança dos filhos de Deus em Cristo (1520 e 1531). Na linguagem dos místicos, Lutero afirma, em 1531, que a "fé abstrata" ou a "fé que justifica" (fides iustificans) é a verdadeira "vida contemplativa" (vita contemplativa), ou, na linguagem dos místicos, a "via negativa", o verdadeiro "fundo da alma", as verdadeiras "trevas" ou do que não pode ser conhecido, mas quando Cristo está presente na fé (Christus praesens), então essa fé é o conhecimento perfeito, o conhecimento da doutrina da fé (doctrina fidei).
Os escolásticos, no entanto, diz Lutero, imaginam que o amor e justiça incipiente sejam o conteúdo ou "forma" da fé, com sua doutrina da "fé formada pela caridade" (fides charitate formata). Lutero não ignora a relação indissolúvel entre fé e amor, mas nega que o amor (gratia increata) confira à fé o poder de justificar, pois a fé justifica somente em conexão com a justiça de Cristo (iustitia aliena) e não em conexão com a justiça própria (iustitia inhaerens).
Para Lutero, no entanto, quando Cristo está presente na fé (Christus praesens) ou, quando a alma está unida a Cristo pela fé (ein kuchen), então a fé não permanece abstrata nem contemplativa, mas, como a chuva, cai e rega a terra. A fé em Cristo não permanece ociosa nem o cristão permanece ocioso, porque Cristo não é ocioso (non otiosus). A fé em Cristo é uma boa árvore, que produz bons frutos, porque onde Cristo habita, também habita o Espírito Santo com seus dons e frutos: Concludimus ergo cum Paulo, Sola fide in Christum nos iustificari sine lege et operibus. Postquam vero homo fide iustificatus est et iam Christum fide possidet et novit eum esse iustitiam et vitam suam, certe non erit otiosus sed ut bona arbor proferet bonos fructus, Quia credens habet Spiritum sanctum; ubi is est, non sinit hominem esse otiosum, sed impellit eum ad omnia exercitia pietatis, ad dilectionem Dei, ad patientiam in afflictionibus, Ad invocationem, gratiarum actionem, ad exhibendam charitatem erga omne. (WA 40a.265.29-266.19 [Gal. 2.18]). A fé em Cristo coram deo é fides abstracta e divina, mas a mesma fé coram mundo é fides concreta e fides incarnata, ela, como a chuva, não fica planando no céu, mas cai sobre a terra, como o rio de água viva (Sl 1, Jo 7.38).
Perante Deus (coram deo), o qual vê o coração (cor), as obras e frutos do Espírito Santo e as obras fabricadas do espírito imundo não se confundem. Perante o mundo, porém, os verdadeiros cristãos são os que parecem menos piedosos. A piedade cristã não busca as obras que têm aparência de piedade. Movido pelo Espírito Santo com seus dons, os cristãos buscam, ao contrário, as obras do amor, cuja glória está oculta assim como a glória de Cristo permanece oculta do mundo. A razão natural não sabe avaliar as obras cristãs, somente quando iluminada pela fé e pelo Espírito Santo, a razão diferencia entre as obras que o mundo admira e as obras que o amor requer. O cristão faz as obras que não têm aparência de piedade no mundo, tais como a oração em segredo, a fidelidade à vocação mesmo sob a cruz e o amor que se deixa gastar sem buscar recompensa. Tais obras não são escolhidas de antemão, nem selecionadas entre as aparentemente mais difíceis ou de maior sacrifício, mas são as obras ditadas no dia a dia pela vocação (Beruf) e pela necessidade do próximo (Not): dass wir unserm Nähisten ans seinem Leib keinen Schaden noch Leid tun, sondern ihm helfen und fodern in allen Leibensnot (Catecismo Menor, 1529) . Assim como a fé, que não tem existência em si mesma, mas em Cristo, também o amor cristão não tem existência em si mesmo, mas no próximo. Pela fé somos livres de todos, pelo amor somos servos de todos. Essa piedade, o amor que não contabiliza dividendos, que não acumula créditos, mas que se deixa gastar, que tudo perde e que tudo sofre (1 Co 13), esse amor somente o Espírito Santo derrama no coração de quem crê verdadeiramente em Jesus para sua salvação eterna.
Para Lutero, a doutrina escolástica da justificação pressupõe um conceito equivocado de Deus e do dom da justiça. Para Lutero, o Deus dos escoláticos é o Deus ocioso da filosofia aristotélica, o qual não tem contato com o mundo criado, pois está ocupado com a contemplação de si mesmo. A doutrina da fides caritate formata é a doutrina do movimento do ser humano em direção a Deus, que permanece distante dos pecadores. A doutrina de Lutero, a da fides apprehensiva Christi, ao contrário, é a doutrina do Deus bíblico, que ama suas criaturas, que age em favor delas e que vem ao encontro delas no mundo. Por isso, Lutero rejeita a idéia de que a justificação é um processo de cooperação entre a graça impessoal e a contabilidade fria dos méritos, da doutrina da justificação dos escolásticos. A doutrina da justificação de Lutero é a doutrina do novo tipo de amor, que a razão e a filosofia não conhecem, o amor do Deus bíblico, o qual ama o que não é belo, justifica o ímpio, e acolhe pecadores em sua graça. Esse amor, revelado em Jesus Cristo, é derramado sobre os que creem e são batizados em Cristo, é não é uma qualidade ou poder impessoal supernatural, mas o Espírito Santo que traz consigo o amor divino, o amor do Pai, espelhado no Filho, porque Jesus Cristo, diz Lutero, é o espelho do coração do Pai (Catecismo Maior, 1529). Esse amor, experimenta somente o que crê, esse amor flui da fé como um rio de sua fonte e nasce como bons frutos nascem da árvore boa, e os servos do espírito imundo podem imitar todas as obras exteriores dos cristãos, e fazê-las ainda mais belas, e carregar cruzes escolhidas aparentemente muito mais pesadas do que a cruz diária na vida cristã, mas jamais podem imitar o amor com que Deus em Cristo nos amou, pois esse amor é a habitação do Espírito Santo no coração dos que crêem em Jesus Cristo para sua salvação eterna.
