Notas e textos sobre os anos formativos da teologia evangélica de Martinho Lutero (1483-1546).
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
O Método Histórico-Crítico e a Pesquisa de Lutero
A aplicação do método histórico-crítico, com a busca de documentos originais e sua pergunta metodológica pelas fontes ou influências para explicar a gênese, no caso, de uma nova teologia, com o qual estamos familiarizados no campo dos estudos bíblicos, também foi aplicado ao estudo da teologia de Lutero. Tal como na área bíblica, houve uma corrida por documentos os mais antigos possíveis, tais como primeira edição e, mesmo, manuscritos de Lutero ou notas de estudantes ou amanuenses profissionais (o texto final de muitos dos sermões e comentários bíblicos de Lutero foram redigidos com base em tais notas). O resultado mais evidente, por um lado, está na monumental edição crítica (Weimarer Ausgabe), que publicou o primeiro volume no anos "400 anos de Lutero" (1883). O método histórico-crítico busca, nos textos do "Lutero jovem", os vestígios das fontes ou os conceitos formadores do seu pensamento, em contraste com a ênfase anterior, do romantismo, que ressaltava a "genialidade" individual e que havia apresentado Lutero como "gênio solitário". Para a interpretação romântica da teologia de Lutero, convinha a imagem do monge enclausurado, afastado do mundo e que, em determinado dia, num ato quase teatral, prega as 95 Teses na porta da igreja do castelo em Wittenberg e, sozinho, faz a Reforma. Para os historicistas, o pensamento novo não surge do "espírito" sem continuidade com o pensamento anterior, daí a busca pela conexão "material" ou pelas evidências e vestígios das fontes formadoras do novo pensamento. Para esta nova pesquisa, que deu origem à chamada "Renascença de Lutero", a melhor imagem do Reformador foi a do professor universitário em diálogo com suas fontes literárias (especialmente comentadores bíblicos antigos, medievais e humanistas), em debate com os seus pares e em contato permanente com seus alunos. Em comum, tanto o romantismo como o historicismo estavam preocupados em explicar a gênese ou origem do novo pensamento teológico de Lutero, os primeiros enfatizando mais o contraste total, quase como um novo começo, e os últimos ressaltando os elementos de ruptura num processo que, também, teve continuidade. Em tempos mais recentes, em decorrência da aproximação ecumênica, alguns pesquisadores tem procurado, sem negar a ruptura, valorizar também, ou especialmente, os elementos de continuidade entre Lutero e a tradição teológica.
