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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Sermões de Lutero sobre Tipos de Justiça (1518)

TIPOS DE JUSTIÇA:

São de 1518 dois sermões de Lutero sobre diferentes tipos de justiça, baseados na perícope do Domingo de Ramos (Filipenses 2.5-11). Em um deles, Lutero fala de três tipos de justiça. No outro, em dois tipos de justiça.  O contexto doutrinário ao qual pertencem estes sermões é a discussão sobre a relação entre graça e obras após a regeneração batismal.  Isso aproxima estes sermões com o escrito de 1521, Contra Latomus, em que Lutero volta a discutir o mesmo tema.

Os três tipos de justiça são, respectivamente: a justiça das obras feitas de acordo com a razão e o livre arbítrio, dons que todos os homens receberam do Criador, mas que usam de forma diversa; a justiça que se identifica, objetivamente, com Cristo, e, subjetivamente, com a fé em Cristo (justiça alheia); a terceira, a justiça que é fruto da renovação ou da fé, a nova vida sob a direção do Espirito Santo.

A cada tipo de justiça, corresponde um tipo de pecado: crimes e conduta reprovável pela sociedade correspondem, negativamente, à vida honesta e louvável (justiça civil); incredulidade, hipocrisia e  religiosidade baseada em justia própria correspondem, negativamente, à justiça mediante a fé em Cristo (justiça espiritual); presença ou remanescência do pecado na vida dos cristãos corresponde, negativamente, aos frutos do Espírito (justiça incipiente).

A justiça espiritual pertence exclusivamente ao coração, é interna ou espiritual, e determina a relação com Deus: é justiça diante de Deus (coram deo)  Esta justiça se opõe diametralmente à razão e ao livre arbítrio, pois é confiança na graça de Deus  revelada em Cristo.  Não há, na justiça espiritual, lugar para o mérito, pois a graça exclui o mérito tanto quanto o mérito exclui a graça.

A justiça civil e a justiça incipiente, por sua vez, dizem respeito à conduta em relação ao outros (coram mundo). Embora a justiça civil (comum  a cristãos e não cristãos) e a justiça incipiente do cristão não se discirnam para o mundo, se discernem diante de Deus porque uma é obra da carne (razão e livre arbítrio) e outra é fruto do Espírito. Mas, nem uma nem outra, justificam o pecador diante de Deus -- o que somente faz a justiça de Cristo.

Mas o Espírito Santo não trabalha para destruir a natureza, isto é, a razão e o livre arbítrio, mas para que estes sejam empregados em sua tarefa própria, que é governar o agir humano neste mundo.  Lutero não rejeita, portanto, uma cooperação entre o Espírito Santo e a natureza humana (razão e livre arbítrio), entre os dons naturais e os frutos do Espírito.  Os frutos do Espírito não eliminam os dons naturais, mas os redirecionam e fortalecem. Por exemplo, o amor materno, que é um dom natural, não é anulado pelo dom espiritual do amor, mas é corrigido e fortalecido.  A mãe cristã ama seus filhos naturalmente, mas este amor não vem apenas dela própria, mas do Espírito Santo que habita em seu coração.  Deus restaura no ser humano os seus próprios dons, para que os dons naturais o glorifiquem mediante a fé.

Lutero pode falar também em apenas dois tipos de justiça, uma em que graça e mérito se opõe diametralmente e se excluem, e outra em que graça e dons naturais cooperam para servir  o próximo e glorificar a Deus.